Fotografar as Estrelas e a Via Láctea, para Principiantes

Atualmente, fotografar a paisagem sob o céu noturno pode ser uma tarefa relativamente fácil e talvez uma das melhores formas de se aprender verdadeiramente a usar a câmara em modo totalmente manual. Com uma quase total ausência de luz, torna-se praticamente impossível para qualquer máquina, efetuar cálculos de exposição e focagem automática, portanto teremos de ser nós a assumir o controlo total das operações o que na verdade, por não implicar demasiadas variantes, torna-se mais simples do que parece. A tecnologia também evoluiu de tal forma nos últimos anos, que hoje em dia qualquer câmara de entrada de gama, já dispõe de capacidades para produzir imagens com qualidade suficiente para publicar online e até para impressões domésticas.

Sendo um fotógrafo amador que pretende rentabilizar o tempo disponível com o que é verdadeiramente essencial, vou-me focar nos métodos mais simples e que normalmente, produzem bons resultados. Existem diversas técnicas, mais complexas que normalmente envolvem múltiplas exposições e forte pós-processamento, mas que não considero ser o principal intuito deste artigo, que visa apenas auxiliar quem se lança nesta aventura, pela primeira vez. Irei descrever, o que para mim é o processo mais simples e rápido de assimilar por qualquer iniciado e que normalmente, se baseia apenas numa única exposição e tratamento posterior simplificado.  

PLANEAMENTO

Muitas das minhas saídas fotográficas não costumam ser propriamente planeadas, contudo neste caso a situação torna-se bastante diferente. Para que uma noite passada sob as estrelas valha a pena e a taxa de sucesso seja o mais elevada possível, é mandatário que se faça algum planeamento. Durante a noite, torna-se difícil a improvisação sendo normalmente uma tarefa árdua, encontrar o que quer que seja. Convém então saber de antemão, onde melhor nos poderemos posicionar e em que momentos poderemos tirar partido da localização da Via Láctea relativamente ao resto da paisagem.

Eis alguns tópicos importantes:

  1. Tendo em conta que a via láctea só será visível num céu pouco perturbado por qualquer outro tipo de iluminação, comecemos por assinalar no calendário, os dias de lua nova, normalmente entre Abril e Setembro (apenas aplicável no hemisfério norte). Embora a altura ideal seja no próprio dia, em que a lua não reflete qualquer luz para o nosso planeta, normalmente incluo também os três dias antes e depois da lua nova.
  2. escolha do local terá igualmente de ter em conta a quantidade de luz envolvente. Assim sendo, será conveniente procurar lugares distantes de áreas habitadas. Zonas montanhosas, especialmente acima dos mil metros, costumam ser locais privilegiados. Podemos também recorrer à informação de sites como http://www.lightpollutionmap.info/, para conhecermos quais as áreas mais escuras e propícias à fotografia noturna.
  3. Verificação das condições atmosféricas no site https://www.ipma.pt/, confirmando se no local escolhido, o céu irá encontrar-se totalmente limpo durante a noite. Observar qual a velocidade do vento, tendo em conta que este pode ter impacto negativo na nitidez das imagens finais, visto que iremos efetuar longas exposições e o que menos queremos, é algo que faça vibrar a máquina.
  4. Recomendo que se utilizem duas aplicações muito úteis, para que se possam prever antecipadamente uma série de condições fundamentais. A primeira, denominada http://app.photoephemeris.com/, é bastante útil para conhecer em qualquer altura e qualquer lugar, dados sobre os ciclos do sol e da lua projetados no mapa. Uso intensivamente esta aplicação, na versão gratuita para desktop embora também exista uma outra para smartphone. A segunda trata-se de https://stellarium.org/pt/, também gratuito para desktop e onde é possível efetuar projeções da paisagem cósmica para qualquer local, dia do calendário e muito útil para saber na linha temporal onde ira estar exatamente a via láctea, assim como outros objetos celestes.

EQUIPAMENTO ESSENCIAL

Por vezes passa-se a ideia de que para este tipo de fotografia, é necessário adquirir equipamento dispendioso. Na verdade, qualquer câmara fotográfica de entrada de gama, que tenha sido lançada nos últimos cinco anos, é perfeitamente capaz de captar imagens noturnas de qualidade, mesmo com a lente de base que costuma vir agregada no kit.

Caso exista algum orçamento disponível, na minha opinião onde o investimento poderia ser melhor aplicado, consistiria numa objetiva mais dedicada e onde dois requisitos seriam então necessários. Deverá ser uma grande angular e com a maior abertura possível (f 2.8 pelo menos), assim como dispor de um anel de focagem com escala de distâncias. Uma das grandes vantagens é que poderá ser uma objetiva fixa e totalmente manual, pois os automatismos não sendo necessários a tornarão bem mais acessível para a carteira. Hoje em dia, existem no mercado, algumas marcas como a Samyang e que a preços acessíveis oferecem excelente qualidade.

Um tripé é obrigatório neste tipo de fotografia. Minimamente robusto e adequado ao peso da máquina mais a lente, este utensílio é absolutamente essencial. Aqui nunca recomendo comprar o mais barato. O tripé é um investimento de longo prazo e deve ser escolhido de forma sensata. Marcas como Benro, Sirui ou Manfroto, já provaram o seu valor no mercado, com peças de excelente relação qualidade-preço

Outro item desta lista e apesar de ser o mais barato de todos é, mesmo assim, bastante importante. Um cabo disparador para evitar que se toque na câmara na altura da obturação. Este tipo de fotografia requer exposições longas para além dos 15 segundos e tudo o que se possa fazer para evitar vibração durante o momento em que a imagem é registada no sensor, será sempre bem-vindo. Existem variadas opções no mercado, de marcas alternativas, de baixo custo, mas que cumprem perfeitamente o objetivo. Contudo e se por alguma razão não tivermos connosco o disparador remoto, poderemos sempre usar o temporizador da máquina para atuar após os dois segundos.

Por razões óbvias, uma lanterna é algo obrigatório. A mais prática e que recomendo, é a lanterna frontal (de transporte na cabeça) e que disponha de luz suplementar vermelha. Este tipo de lanterna é bastante versátil e permite uma maior liberdade de movimentos para operar a máquina. Como os nossos olhos necessitam de alguns minutos de adaptação à fraca iluminação noturna é importante que na maior parte do tempo, seja utilizada a luz vermelha, pois tem um impacto muito reduzido na capacidade que temos para ajustarmos os nossos olhos à obscuridade. Também será muito útil para aplicar a técnica de pintar com luz ou light painting, da qual falarei mais à frente.

Por fim e não menos importantes, irei mencionar alguns itens que nos ajudarão a tornar a noite mais agradável e confortável como será o caso do vestuário adequado às condições atmosféricas, previamente pesquisadas. As noites, mesmo no verão, podem ser frias e uma noite supostamente bem passada, pode tornar-se bastante desconfortável se não estivermos preparados. Um casaco polar ou de penas, luvas, gorro e calçado quente costumam acompanhar-me quase sempre nas digressões noturnas. Além do vestuário, alguns alimentos fáceis de transportar, como barras energéticas, bolachas, frutos secos, etc., assim como também a água, serão fundamentais. Chá ou café dentro de uma garrafa térmica, também é algo que recomendo. Uma noite com frio, fome ou sede não culminará decerto, numa noite memorável nem convidativa à criatividade.

SEQUÊNCIA TÉCNICA

Na fotografia em geral, a composição é o mais importante e à noite também não será exceção. Antes de tudo, convém ter uma ante-visão do que queremos fotografar e que proporcione algum contexto ao céu estrelado. Uma fotografia com apenas o céu e a via láctea não terá muito interesse. Convém que exista algo mais para completar o cenário. Deve-se procurar sempre, algo num primeiro plano e enquadra-lo com o resto da paisagem. Se for possível, será ideal visitar previamente o local durante o dia, para que se possa fazer uma pré-visualização da imagem que pretendemos. Contudo também será possível ter uma ideia aproximada, através de pesquisa prévia de terreno no google earth, em locais que vamos visitar pela primeira vez.

Para ancorar o enquadramento, tenho por hábito utilizar árvores, rochas de dimensões e formas que se distingam no terreno, tendas com o interior previamente iluminado no seu interior e silhuetas humanas colocadas sobre a linha de separação entre o terreno e o céu, como no exemplo da primeira imagem. No último caso, como se tratam de exposições de alguns segundos, será necessário que o sujeito permaneça o mais imóvel possível e numa posição de destaque. Aí será sempre uma questão de tentativa e erro.  

Um problema que se coloca, é o facto de tudo à nossa volta estar normalmente, às escuras. Para contornar isso, uma das técnicas que mais gosto de utilizar é a pintura com luz ou light painting . Na verdade consiste em recorrer a numa simples lanterna e durante a exposição, após o disparo, iluminar o objeto no primeiro plano em varrimentos suaves, como se estivéssemos a pintar um quadro. Mais uma vez o processo de tentativa e erro será a chave. Não existe uma regra que se aplique, pois a forma e o tempo dos varrimentos, dependerá de muitos fatores, como iluminação ambiente, distancia ao objeto, etc. Normalmente e como exemplo, se a exposição for de 20 segundos ligo a lanterna e começo por pintar com a luz de forma uniforme, o objeto durante cerca de cinco a dez segundos. Posteriormente, avalio a exposição no LCD e vou ajustando o tempo e o ângulo de incidência (na maior parte das vezes a incidência lateral causa efeitos mais apelativos e mais tridimensionais, mas tudo isto dependerá de gostos pessoais.     

Configuração da câmara e ajuste da lente:

  • 1º passo – Montar a câmara no tripé e verificar se todos os encaixes estão bem fixos. Verificar se o tripé se encontra bem posicionado e apoiado de forma a que não venha a sofrer qualquer tipo de oscilação.
  • 2º passo – Conectar o cabo disparador e ligar a câmara
  • 3º passo – Colocar câmara e lente em modo manual e executar as configurações base, que serão o ponto de partida (abertura maior que a lente permita como por exemplo f2.0, velocidade de obturação para 15 segundos e ISO 3200)
  • 4º passo – Focar a lente para o infinito. Numa objetiva com mostrador de distancias, será só rodar o anel até à respetiva marca que assinala o infinito (variável consoante o modelo). Com uma objetiva sem mostrador, a tarefa tornar-se-á um pouco mais difícil e existem dois métodos para o fazer. O primeiro consiste em, efetuar a focagem para um objeto distante, durante o dia, colocando em seguida um pouco de fita isoladora no anel, para que este não se desloque ou então previamente, colocar uma marca na lente mas sem a danificar. O segundo método consiste em focar, já durante a noite, um objeto distante (ponto de luz artificial, estrela ou planeta que se distinga no céu, ou em ultimo caso, colocar uma lanterna a cerca de 50 metros e tentar focar esse ponto de luz até que o mesmo fique o menos difuso possível. Não esquecer que durante este processo a lente tem de ser comutada para o modo de focagem manual e assim permanecer até ao final da sessão fotográfica.
  • 5º passo – Efetuar disparos de teste, com ISO bastante elevado e exposições mais curtas para poupar tempo, enquanto afinamos o enquadramento.
  • 6º passo – Verificar a exposição e focagem no ecrã LCD. Note-se que este visor pode ser muito enganador e aquilo que parece bem visível e definido naquele pequeno ecrã, pode vir a ser uma desilusão quando visto posteriormente num monitor de maiores dimensões. Assim, recomendo que se baixe a luminosidade do LCD e que se façam confirmações frequentes com recurso a zoom, para verificar se o foco está correto

PÓS-PROCESSAMENTO

As imagens noturnas necessitam de algum trabalho posterior no computador, em especial a atenuação de níveis de ruído, causado pelas longas exposições e utilização de ISO elevado, assim como a necessidade de reajustar a temperatura de cor, níveis de contraste, etc. Recomendo que se fotografe no modo RAW, pois trata-se de um ficheiro que nos permitira uma muito superior amplitude para o tratamento. Contudo e como este artigo visa os estreantes nesta área da fotografia, que muitas vezes não dispõem de software dispendioso ou conhecimento mais profundo de edição, criar imagens em JPEG, na própria câmara não será impeditivo. Já vi fotografias bastante aceitáveis, processadas diretamente pela máquina, desde que a exposição e balanço de brancos tenha sido bem configurados previamente. Neste caso, poderá ser útil a função de redução de ruído, disponível na maior parte das câmaras. Note-se porém que esta função, depois de ativada, duplica o tempo de exposição. Para a ativação da mesma, recomendo contudo, a consulta ao respetivo manual do utilizador.

Questões a considerar

Entendendo que para muitos, o facto de estar num local rodeado de uma imensa escuridão nas noites de lua nova, pode criar algum desconforto e apreensão. O ser humano ainda carrega nos seus genes o instinto de sobrevivência que vem dos tempos antigos, onde o estado de alerta era uma constante. O nosso cérebro tende a pregar-nos algumas partidas em ambientes de muito baixa visibilidade, mesmo que aparentemente seguros. Por isso recomendo que, pelo menos inicialmente, estas atividades fotográficas noturnas se façam na companhia de alguém que partilhe do mesmo entusiasmo. Essa tem sido a minha prática comum e que normalmente culmina num serão bem passado, em boa companhia. Na maior parte das vezes o convívio até acabará por ser mais recompensador do que as imagens que conseguimos trazer para casa. Além do mais, assistir ao movimento celeste durante boa parte da noite é uma experiência inigualável e especialmente, quando graças a tecnologia que hoje existe, conseguimos eternizar esses momentos em belas imagens.

Nota final

As imagens apresentadas neste artigo foram concebidas com uma única exposição e apenas com pequenos ajustes em Adobe Lightroom. Poderão não ser dignas de apresentação nos concursos mais famosos de fotografia ou para fazer parte de um portefólio, mas têm qualidade suficiente para serem partilhadas com sucesso nas redes sociais e acima de tudo, serem representativas de uma experiência especial e diferente de todas as outras. Foram conseguidas com técnicas básicas e ao alcance de qualquer pessoa pouco experiente e um ponto de partida para os que ambicionem especializar-se nesta área. Poderão posteriormente, evoluir para outros métodos que exigem uma maior curva de aprendizagem e mais tempo de pós-processamento, mas que por outro lado, permitirão dar origem a imagens mais limpas e de nível superior.

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