Fotografar no meu Quintal

Fotografar perto de casa pode ser o melhor caminho para se conseguir criar um trabalho mais profundo, único e original. O conhecimento profundo de um lugar, graças a visitas constantes e repetidas, levam-nos a ultrapassar o óbvio e a encontrar detalhes e composições que normalmente nos passariam despercebidas, se nos dispusermos a olhar verdadeiramente para as coisas.

Eis aquelas que considero serem as principais vantagens:

Melhor antecipação das condições

Tenho o privilégio de viver bem perto de uma zona de baixa montanha, composta por uma grande área florestal e diversos cursos de água, de tal forma que posso observá-la a partir das janelas de minha casa e podendo facilmente analisar as condições atmosféricas que se apresentam no momento. Posso também, de forma mais frequente, visitar esses espaços em diferentes alturas do ano e assim entender melhor toda a sua dinâmica. Isso permitirá, que ao encontrar cenários e composições com potencial, possa facilmente regressar com condições mais favoráveis.

Maior ligação ao local

Na minha opinião, perto de casa não implica propriamente uma grande proximidade, mas sim tudo o que se encontre a cerca de trinta ou quarenta minutos de carro, podendo ser um simples jardim, parque municipal ou uma zona de costa.

Um lugar que facilmente se encontra ao nosso alcance, tornar-se-á facilmente, mais íntimo e familiar. Em repetidas visitas, vamos progressivamente conhecendo o seu caráter e mais tarde, até alguns dos seus segredos mais escondidos. Poderá ser até nessa altura, que a Natureza nos revelará a sua beleza menos óbvia ao olhar comum e que nos permitirá criar imagens únicas e mais profundas.

Serras do Porto, Valongo

Fotografias com mais sentido e história

Numa era em que produzem diariamente milhares de fotografias, sem dúvida bastante apelativas, mas muitas delas sem alma, repetidas vezes sem conta, exatamente a partir dos mesmos locais e com a mesma receita de pós-processamento, a melhor forma de criar trabalho único e com mais sentido, poderá passar pela exploração de lugares novos e pouco frequentados.

Entendo que não será um processo tão fácil como copiar aquilo que muitos outros fazem em frente de certos cenários icónicos, que também pela sua grandeza estética, já facilitam bastante a tarefa do fotógrafo. Contudo, apesar de achar que tudo isso possa fazer parte da curva de aprendizagem, o artista deve seguir em frente e encontrar o seu próprio caminho, num processo criativo único, não só para mostrar o que se encontra à sua frente, mas acima de tudo para exprimir a experiência que viveu. Julgo que só percorrendo esses lugares familiares, em vez de querer partilhar os mesmos “spots” com mais uma dezena de outros fotógrafos, estará bem mais perto de atingir o que verdadeiramente é a arte.

Abordagem mais calma e pensada

Por outro lado, os lugares familiares e mais próximos, convidam a abordagens mais descontraídas e por consequência a algo de extrema importância na fotografia… tempo. Tempo para olhar, para pensar, para absorver tudo o que nos rodeia e para sentir verdadeiramente a paisagem.  

Também, através do conhecimento profundo de um lugar, graças a visitas constantes e repetidas, levam-nos a ultrapassar o óbvio e a encontrar sujeitos e composições que normalmente passariam despercebidas.

Serras do Porto, Valongo

Maior probabilidade de sucesso, mesmo em locais banais

Um lugar familiar convida à exploração, a sair fora do caminho principal e a descobrir novos mundos. É incrível o que a paisagem tens para nos oferecer, mesmo nos lugares mais banais e diminutos. Será igualmente vantajoso para os que queiram entrar no mundo da macro fotografia, pois até dentro de nossa própria casa, poderemos encontrar verdadeiras expressões artísticas.

Haverá também possibilidade de nos familiarizar-mos melhor com os diferentes comportamentos da natureza, numa mesma área, em diferentes estações do ano e que certamente darão origem a fotografias dos mesmos sujeitos bastante distintas entre si.

Menores custos

Outro factor, não propriamente relacionado com o processo criativo, mas também muito relevante será o facto de, ao explorarmos as áreas mais próximas, baixarão consideravelmente os encargos financeiros. Lembre-se que uma viagem, implicará custos com transportes e possível alojamento, já para não falar do impacto ambiental e da pegada ecológica inerente às viagens de longo curso.


Por todas estas e outras razões, deixemos de parte a obsessão continua de querer estar em lugares exóticos distantes e observemos com outros olhos, a beleza escondida que está próxima de nós.

“A viagem da descoberta consiste não em achar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.”

Marcel Proust

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